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junho 05, 2022

Santa Ceia [Delicado desespero, III]



 

Santa Ceia

Motores de ônibus retumbavam contra os enregelados gambitos. Andrajos cobriam-lha como monge excomungado da ordem. Consumia-se nele a fome. Fogos desciam e subiam: iluminavam-no desde dentro. Passo. Passo a passo. Pegada. Pegada a pegada. Escondidas ficavam sobre o duro concreto as tênues marcas de seus pés. Não havia lastro de existência. Só a imagem curvilínea delineada na porta de vidro do barbeiro. Desses de rodoviária. Desses que fazem barba, bigode. Os chinelos agarravam-se com todas as forças às finas tiras, travavam verdadeira cruzada para não arrebentarem. Feito imagem refletida em sujo vidro. Esquálido. Cisco de vida incômodo no olho do mundo. Sendo a efígie que era esgueirava-se por entre os Corpos corpulentos encorpados pela comida caudalosa servida em cumbucas fundas fundíssimas forradas feitas e fundidas de Corpos. À procura do cliente almejado sapato a ser engraxado. Deslizava folha de jornal escapada e levada pela lufada de ar. Voava mais do que andava. Medo. Concorrência grande. Outros da estirpe competiam os sapatos. Sobrava da raça. Faltava sapato. Faltava corpo para impor-se. Faltavam músculos. Faltavam braços. Pernas para concussão no inimigo. Faltava roupa. A pele macilenta esticada sobre os ossos dava-lhe um ar de relíquia. Pedaço de santo feito menino. Deveria aguardar junto às catedrais: gárgula com olhos metonímicos: o soar da trombeta no dia do juízo. Mulheres Homens todos observavam sem enxergá-lo. Acostumado aos restos de mesa das migalhas esboroadas espalhadas aqui lá acolá. Perito em ajuntar restolhos que pareciam perdidos ao esbanjador. Encontrou por fim o cliente, não o benquisto. O mais simples. Humilde. De parcas gorjetas. Do ombro desliza não sem deixar o ardor da madeira sobre sua carne ecoar. A pequenininha caixa de engraxate. Sua escovinha e graxa devidamente organizadas. Era um executivo. Um burocrata com sua papelada em ordem. O que o distinguia de seus pares era somente Fome. Lentamente passou a graxa. Deslizou a escova. Lustrou o sapato como se limpasse taças do mais fino cristal belga. Havia algo de Caravaggio em suas escovadas. Um realismo desesperadamente religioso. Cruelmente religioso. Como São Tomé ao espicaçar ingenuamente as chagas do mestre. Terminada a empreitada descansou no sétimo minuto de serviço. Tremeluzia em sua face o suor de todos os pobres. De todos os meninos esfomeados preenchidos pelo éter vital. Pela vontade de um não-sei-o-que que os impulsiona: vida talvez vida quem sabe vida que vida? Ganhado os trocados aguardava-o na barraca de frente ao lado do guichê um grande tacho de sopa com carne moída requentada com sobras de pão de dois dias. Socialista dirigiu-se a maitrê do restaurante e dispensou garçons: nada de a la carte servir-se-ia ele mesmo. Ao chegar ao palato o pão tinha gosto de angústia. Lágrimas. Sudorose. Perda. Futuro transubstanciado em pão. Como menina que furtivamente rouba as maquiagens da mãe experimentando o pecado da vaidade pela primeira vez. Na antecipação de um futuro borra sua boca pela primeira vez. Deixa que o pó lhe marque no rosto seu trajeto. Pó da terra. Observa-se no espelho maravilhada com o títere que a observa nela mesma presa pelas linhas. Chacoalhada. Levemente inclinada. Deixa-se cair no chão pois dele não passa. Há de se erguer ao mando do Mestre. Encaixar-se-á em seu grilhão. Mal sabia que ensaiava a pequena sua tragédia de adulta. Se não o Céu ao menos o Chão. Via o pequeno seus lampejos do porvir evolados do pão repartido. Via inverter-se o tempo para cada uma das coisas da terra. Adiantava-se sobre o relógio. Dava voltas voltas e mais voltas nos ponteiros. Trilhava anos-séculos de trabalho em dias. Seu trabalho também era o exemplo de uma vontade de adiantar o tempo. Mas nele não havia seu pai arquétipo: era um ele mesmo que voltava ao presente para esticar-se ao futuro. Exemplo de si mesmo para si mesmo enquanto centelha de si mesmo no futuro. Viajante estrangeiro no presente. Mas era também comida. Tinha um sabor que só a fome a espera a expectativa e a incerteza do comer ou não comer temperam a comida edulcoram seu sabor e dão relevo as suas cores. Um tipo peculiar de chiaroescuro: do cinéreo tom da carne ao rubor do molho fervente. Escorria o caldo. Escorria o elã. O sangue vertido em vinho havia de preenchê-lo. Por quarenta dias e quarenta noites perambulou pela rodoviária: alimentado pelo pão ázimo.


[Caio Russo. Delicado desespero de beija-flor em voo, p. 23-25]

[*Pintura: Caravaggio. Cena in Emmaus]