"Me matou em outra vida, amor?" perguntou ela.
Sabia dos pesadelos,
dos mortos de cada noite
do rosto difuso e desconhecido
do último respiro, suspiro
das vítimas.
"Apenas uma vez trucidei alguém, as outras só atirei neles"
Qual essa poesia?
Por que esses corpos nas tuas mãos e olhos?
Exatamente onde atiravas, Cneo?
Em fuga, sempre,
aprendestes a arte de atirar em movimento.
Por isso.
Não conheces o rosto
de tuas vítimas.
Mas
O que tem a fazer um pobre homem face à uma mulher genial?
Ela, o olhar.
Ela tem rosto
É o arquetipo de qualquer rosto.
Olhar, colo, um coração a palpitar.
E uma pergunta.
Pergunta de amor, pergunta de medo, pergunta de ódio.
Matei-te em outra vida, por isso,
Agora es minha mãe.
Castigo, ameaça, um rosto e um olhar.
E um coração a palpitar
Amo-te de amor de arqueiro.
Hei de atirar no teu coração.
Como já fiz em outra vida
Farei pela eternidade
de novo.
Hermann queimava suas mães.
Eu atiro nelas.
Medo?
De quê?
Tenho em mãos um segredo.
Mesmo perdido, aguardo
Paciente
Tenho um segredo, um arma.
Um método.
Só atiro uma vez.
Uma vez que se repete pela eternidade.
Amei-te com amor de arqueiro.
Mas
O que tem a fazer um pobre homem face à uma mulher genial?*
Olhaste primeiro.
Prometeste colo e cuidados.
[Fotografia: Alex Bowle, Women of the IRA, Northern Ireland, 1977]
* A frase se inspira no artigo "Qué puede hacer un pobre hombre frente a una mujer genial?", que Patricio Marchant dedica a Gabriela Mistral.