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janeiro 24, 2016

Navegar é preciso...


Vou começar com um clichê, reza a lenda. Pois tá, reza a lenda de que o general romano, Cneo Pompeu Magno, proferiu a expressão "navigare necesse est, vivere necesse non est" com ocasião de uma perigosa viagem de barco realizada desde Sicília até o continente. O objetivo: levar aprovisionamentos até Roma, que se encontrava cercada pela rebelião de escravos liderada por Spartacus.

A arenga tornou-se lendária, não apenas porque encorajou aos marinhos a empreender viagem em condições adversas, senão também porque para a história romana a decisão de embarcar foi crucial para garantir o sucesso militar da reação do Império. Pompeu, de fato, liderou naquela expedição a terceira das tentativas por recuperar a capital. Venceu o cerco montado pelos escravos e abasteceu a uma Roma que enlanguescia de fome e cansaço. 

Plutarco narra esta façanha na summa biográfica, intitulada Vidas Paralelas, que dedica uma seção a Pompeu. No entanto, a cultura lusófona contemporânea sabe do relato pela apropriação poética, realizada por Fernando Pessoa. Em Navegar é preciso, Pessoa compõe uma ode à sina criativa pela qual oferece sua vida ao engrandecimento da humanidade. Seu corpo, e alma, hão de se transformar em lenha dessa ventura.

Navigar é preciso bem podia ser o nome desse blog, a oferenda que aqui transcrevo. Algo da vontade veemente de arder como a lenha de Pessoa. As vezes, lenta e silenciosa; outras, de voz inflamada. Outro pouco do ensejo de Pompeu, que içou velas diante da evidência do perigo, porque necessário. E sem dúvida, também, algo de Géricault, quem, exprime os inúmeros desdobramentos que o naufrágio gera na alma humana e os diferentes personagens que esta é capaz de criar. 

O blog já destilou abundância. Teve produtos apressados que fermentaram antes de tempo e escoaram pelo ralo. Alguns, poucos, antes de evaporarem, perfumaram o som da minha voz ou enfeitaram o brilho dos meus olhos. E, sim, esse blog já nominou-se Dizer é preciso. Um dia, em trejeitos de censura e prestidigitação, se tornou Pas besoin de dire, uma sorte de "Dizer não é preciso". Quis brincar de carta roubada, de maneira que o que precisava ser mascarado fosse ao mesmo tempo evidente. Tão evidente, que escondido. 

Hoje não sei, ao certo, o que este Pas besoin significa. Por isso, retomo e escrevo. 

Ai, tanto que (não) escrevo! 



[Pintura: Thédore Géricault, Le Radeau de La Méduse (Louvre)]
[Publicado em retrospectiva entre fev de 2016 e mar de 2025]