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outubro 28, 2016

Botella al mar

Ainda lembro, quando tímida, colocas-te essa flor murcha entre meu papéis.
Junto, um bilhete com a seguinte inscrição:
um poema de Teillier.



Botella al mar

Y tú quieres oír, tú quieres entender.
Y yo te digo: olvida lo que oyes, lees o escribes.
Lo que escribo no es para ti, ni para mí, ni para los iniciados.
Es para la niña que nadie saca a bailar,
es para los hermanos que afrontan la borrachera
y a quienes desdeñan los que se creen santos, profetas o poderosos.


outubro 06, 2016

As três rosas




Juntos víamos as três rosas
colorir, florescer.

Perto do prédio onde dormias,
e sonhavas com grandes impérios, invasões e morte,
também, soubeste da vida.

Vênus, tecias minhas veias com estrepitosa velocidade!
Exercitavas inaudita alquimia no meu coração!

Meus olhos conheceram, junto a ti, os segredos segundos do amanhecer.
A lua refletindo nas águas.
O reverbero do silêncio.

Meu coração vibra do rugido de mil exércitos.
Conhece o tecido arbitrário da história.
Sabe dos cantos segredos que escondem as construções do tempo.

Infinitas vezes irá pular por essa janela.
Abrir-se-á ao vento e à luz, às tuas nuvens.

À beira do seu caminho estão cansados os homens.
À escuta das suas palavras abdicaram os imperadores.

Vênus, penso nas três rosas.
Na sua estranha geografia,
nas paragens que as esperam para florescer,
de novo.


[Brouillon du printemps, 2016]
[Fotografia: Impressive Conceptual Self Portraits by Cansu Özkaraca]

agosto 08, 2016

Marchant. Rascunhos IV. Exceção erguida


APÉNDICE SEGUNDO
EL DOBLE RITMO
(p. 338) 
Recuérdese la teoría de Ferenczi. En el acto sexual, el hombre, idéntico a su sexo, él es su sexo, se introduce en la mujer; generosidad de la mujer, sin su consentimiento no hay acto sexual, insistencia de Groddeck que señalamos; la mujer, entonces, le da, al hombre, la erección, la erección adecuada; esto es, la mujer enamorada siente la erección del hombre como erección para ella. En el acto sexual, entonces, el yo del hombre, su alma, su espíritu, su consciencia se siente orgánicamente, es orgánicamente, su yo es un cuerpo, y necesidad profunda del hombre de sentir asegurado así su ser.
[Patricio, ¿o que aconteceu? ¿Cadê o interesse pelas amantes-mães que iriam cuidar (vigiar na vigília) do teu sono? ¿Agora deixas Hermann e voltas a Ferenczi? ¿As flores te lembraram que há vida para além desse leito de morte onde tuas amantes (ou seja, tuas mães) te protegem, enquanto dormes, dos teus pesadelos?]
Acredito que na lógica de constituição de Sobre árboles y madres, este apêndice tem um papel crítico relevante. Não sei se daria para sustentar uma exceção, um território desconhecido para a teoria do amor da mãe, mas o seguimento cuidadoso do ato sexual parece ameaçar o protagonismo, quase absoluto, atribuído às instâncias post-coitais dentro dessa teoria. O que interessa do amor da mãe-amante é que ela é leito para o homem. Ela, com efeito, ao se oferecer às artes amatórias, se oferece também como colo onde descansar e dormir e, dessa maneira, se oferece como leito arquetípico, ou seja, como leito de morte. Daí sua leitura dos Sonetos de morte de Gabriela Mistral. Entretanto, este apêndice dedicado fundamentalmente a Ferenczi tematiza o que justamente esse leito colocava entre parêntesis: a ereção. O descanso após o coito pressupõe uma suspensão, um parêntese, ou qualquer outra forma (inclusive, as mais definitivas) de negação da ereção. E, no entanto, aqui vemos a um Marchant que dedica uma ode aos desdobramentos orgânicos do homem no ato sexual. Possibilidade de um amor sem mães? Quem sabe. Apesar do papel hegemônico que ocupa essa forma do amor, há exceções notáveis no seu breve percurso escritural. Até onde minha vista me acompanha, podemos elencar algumas: as flores à beira das sendas [pergunto: será que elas são o "modelo" da generosidade? casualidade interessante, pois as flores à beira do caminho fazem o bem sem querer, ou seja, por pura e simples generosidade] e as alunas [Angélica, modelo de um amor que se faz sem a mãe e que, assim, permitiria abrir as criptas, modelo do segredo de mães guardado no leito definitivo]. 


agosto 03, 2016

Rascunhos III. "Soledad Sola" sive Das flores do sendeiro



DESOLACIÓN CINCO
- último nombre -

"Prestado tu nombre, prestado tu tiempo; aquí escribo el fin del plazo, del contrato, de ese préstamo: prestada lealtad, escritura, después –Cecilia. [...] Al día siguiente, encuentro inesperado, tantos meses después, con Soledad Sola; su alegría, profecía sobre ella que vi cumplida –que a veces uno también hace el bien, incluso sin quererlo."

"Fazer o bem sem querer", acredito, seja um assunto mais interessante e, talvez, absolutamente alheio daquele outro que reza: "fazer o bem sem olhar a quem". Este último pressupõe o bem, o instaura como o ponto de partida. O que está em jogo é o sujeito da atribuição... questão de economia. Como se o bem fosse mercadoria digna de distribuição e aqui estivesse em xeque o grande esforço de não decidir, de evitar o inevitável. Tratando-se de bens, distribuir resulta inevitável, mas eis aqui alguém tão bonzinho que até fará par nós os esforço de cobrir os olhos e fazer o bem sem decidir quem será o favorecido. 

Bondade redobrada, dessa vez, bondade justa porque bondade ignorante. 

Mas o que me interessa desta frase de Marchant - quem, lembremos, reivindica o papel superior dos maus, os únicos capazes da força da transformação! - é uma tentativa riscada de se internar na anulação do circuito distributivo da bondade. O bem que distribui "bens", circuito do "dom" que nos mantém presos à devolução. Dívida ainda mais perversa se consideramos que o sujeito credor, neste caso, é qualquer, ou, o que vem a ser o mesmo, todos. Devemos o bem a todos, por isso o fazemos cegos sem olhar a quem fazemos. Paradoxalmente, parece muito com essas frases de boa vontade expressadas nos calendários de crianças. Ay, meu deus! quantos calendários desses eu guardava dentre minhas anotações de adolescência. Os filósofos antes da revelação da verdade acostumam ser padres (aff!), ou, tem outros piores, se dedicam às artes edificantes da bondade e colecionam frases bondosas em fichinhas cor de rosa. 
 
No entanto, Marchant sugere a presença de um bem que seria feito sem querer, o bem inesperado não pelo acaso da cegueira distributiva, senão pelo acaso intencional. Fazer o bem sem intenção de fazer o bem. Fazer o bem sem fazer o bem. Fazer o bem próprio de uma flor à beira da senda que se dá cheia de perfumes. Se dá sem decidir, se dá porque faz parte da sua natureza se dar. Marchant coloca em jogo uma possível, inesperada, hipotética, alternativa à mulher-mãe. A mulher-mãe da-se completamente, mas garante a recuperação de tudo o que entrega. A mulher-mãe espera pelo filho no leito de morte. Ela é a amante transfigurada porque eles, filhos ingênuos, nunca fogem do colo materno. Lendo a poesia de Gabriela Mistral, Marchant organiza essas dimensões sobre a figura da árvore. Galhos bem organizados aos quais manter-se agarrado, ligado, colado. Nunca saímos do colo materno, o procuramos nas amantes da série, e vimos encontrá-lo ao momento de morrer, no leito materno de volta. 

Mas...

Haveria a possibilidade de surgirmos para além dessas árvores? E as flores da senda, as flores que, sem querer, vão e voltam? Soledad Sola, Solidão só, o nome que Marchant dá a uma dessas flores que, de certo, deu de seus melhores perfumes ao escritor, sem querer, como por acaso, alguma noite aleatória. Nada do que se prender, nada de colo, nada de galhos, nada de árvores. Apenas um bem por acaso. Um bem deslocado do circuito da bondade. Um bem que só os maus - uma mulher tão má que não consegue ser mãe do seu amante! - seriam capazes de dar, e que deram porque não era para dar. Deram, também, por acaso.  



[Pintura: Renoir, Sendeiro del jardín de Giverny, 1900]


julho 29, 2016

Poetry... private affairs




O excerto preferido da leitura diária de Gonzalo Rojas. A imagem escolhida, obviusly, pintura de Rossetti. Logo, as discussões sobre os mistérios da pintura... uma tradução da Ballade des Dames... de Villon e, de novo, de volta a Rojas. 


Muerta mi muerta, aclárese todo, admítase
e infórmese que María
Mc Kensie no está ahí en ese cofre 
de ceniza, ni en Glasgow
ni en Alcántara mortuoria, que su hermosura
sigue siendo mi adicción, que todavía
y qué importa el Mundo nos reímos del Mundo
fuertes y felices, que va a estallar el Mundo,
que lo que va a estallar es el Mundo.

Y ella en cambio tiene 20, su corazón
tiene 20, su pelo
precioso, su frescor, su aroma
flexible de muchacha blanca, sus rodillas,
esa piel que no habrá, fuera claro
de las noches portentosas hasta las últimas 
estrellas en el oleaje pétreo, Atacama
adentro, allá por el 42 de 
la Guerra Grande incluyendo su preñez, 
el misterio de su preñez, [...]

De El Cofre, in La miseria del hombre (Santiago: Diego Portales, 2010, p.13)


Maria, o Mundo, um cofre e, por que não, uma caixa de música. Motivo medieval, dizem os comentadores. Figuras simétricas que sugerem dois anjos tocando música. Romanticismo insuportável que reconhece, perverso, o trânsito (esse fio demoníaco), entre a sedução, a maçã irresistível e o leito. Leito, de amores ou de morte? Pouco importa. Morremos de amores por essa maçã, corremos cegos em busca da asma que nos conduz até alturas irresistíveis, inatingíveis. Outros poetas irão descrever esse fio delicado que liga as alturas às agonias do amor. Agora voltemos aos leitos - abandonemos este ato falho de pensar em alturas - do que se trata, aliás, aqui é da ossada do poeta inglês. Essa, à qual nos dirigimos ofuscados pela maçã desejada. 

Explique-toi...

Em The Orchard-Pit Rossetti apresenta a maçã traiçoeira com a qual uma tal Cirse seduz seus amantes, os envenena e os deixa cair atordoados nesse monte de ossos ressecados pelo tempo. Cuidado, se seguimos a interpretação de Cortázar - quem inclui um trecho do poema de Rosseti na epígrafe de seu conto Cirse -, cette femme parece se aproximar mais da tímida jovem marcada pelo fatum inevitável de ter que envenenar seus noivos do que de uma Eva que sabe seduzir. Delia, a jovem que encarna Cirse no conto de Cortázar, não sabe o que faz. Sua sedução depende de sua ausência, timidez, silêncio. Angustiada vê-se na necessidade de elaborar finos e delicados licores para colocar dentro das trufas da morte. Parece, apenas, uma menina querendo agradar. A estória não esconde segredo algum. Desde o começo do conto sabemos o que irá acontecer. O saber não é uma conquista para ser oferecida na forma do delicioso fruto vermelho. Conhecimento: algo banal. O charme do conto está na demorada preparação do licor, na inesperada barata que Mario achou no fundo da trufa antes de morrer. O inseto pode substituir o papel clássico da maçã de Eva? Não acredito...

Ora, concentremos a vista nesse lien de poetas que surge entre amor e morte. O amante vai para a morte não porque sai do paraíso (me poupem dessa estorinha com Eva!). Não gosto do papel atribuído ao conhecimento. Adoro as maçãs, adoro oferecê-las (aliás!) mais pelo sabor doce que escorre entre os lábios vermelhos de Venus, do que pela suposta promessa de conhecimento. O amante vai para a morte porque não pode amar fora do âmbito da morte, porque todo seu suor envolve a perda do ar, porque anseia morrer no leito, chegar ao leito. A morte trabalha desde dentro a luta dos amantes. E a relação não se expressa num saber, não é patrimônio de poetas. A relação e o próprio caminho, o aprimoramento sutil do próprio amor - Genet chamava de violência à serena fragilidade de seu amante. Como a fúria amorosa que se desdobra no carinho, nas carícias imperceptíveis, no colo oferecido como a primeira forma do descanso definitivo. Por isso minha obsessão com Délia e seu demorado procedimento de elaboração das trufas.    

Ao passar penso brincalhonamente, se não são os anjos dessa pintura os que operam esse bendito vínculo entre amor e morte. Anjos venham construir o vínculo! Anjos-demônios transformem cada beijo dos amantes no desgastado brilho dos corpos da ossada! 
    
The Blue Closet é o nome da aquarela que Rossetti pinta para William Morris em 1857. Morris parece ser relevante na produção de intrigas acerca do quadro. A aparente ausência de motivos descrita por Rossetti, se enfrenta aos mistérios insuflados pelo amigo. Não tenho fôlego - e o mais importante não tenho arquivos - para mergulhar nessa correspondência, mas achei interessante a casual sugestão de uma relação possível entre o quadro e o poema Ballad of the Dead Ladies, tradução da Ballade des Dames du temps jadis composta por François Villon em torno do século XV. 


[...]

Où est la très sage Héloïs,

Pour qui fut châtré et puis moine

Pierre Esbaillart à Saint-Denis ?
Pour son amour eut cette essoine.
Semblablement, où est la roine
Qui commanda que Buridan
Fût jeté en un sac en Seine ?
Mais où sont les neiges d'antan ?

[...] Prince, n'enquerrez de semaine
Où elles sont, ni de cet an,

Que ce refrain ne vous remaine :

Mais où sont les neiges d'antan ?


Essa pergunta no final de cada estrofe, sua repetição cuidadosa, a delicadeza da neve caindo, me fizeram pensar no tempo. Não consigo desvendar, agora, a natureza desse tempo. Mas quando lia os traços de Villon, olhava para o quadro de Rossetti, pensava na pele delicada das musas dos outros quadros (especialmente em Jan Morris), me confundia na imaginação da Maria de Rojas e pensava no tempo, no brilho da pele e o tempo, a asfixia e o tempo, as luzes refletidas no mar e... o tempo. Flores, a lenta separação das pétalas, a perda das cores e perfumes, a transformação em pó. E nós, morrendo de amores por essas flores, por sua vaidade, seu private affair

Gabriela (Mistral) com tom de mãe diria para Gonzalo (Rojas): Mas não um pó qualquer, meu filho, o pó neste leito de mãe que te deu a vida, te abandonou para te abandonares à ilusão de viver e te espera, paciente, no leito de morte. Oh, pó no féretro! 
 

[G.M.;G.R.]
[Pintura: Rossetti. The Blue Closet, 1857]

fevereiro 20, 2016

Soledad Sola

 

Flor ímpar que falas sobre a ausência de árvores e sobre o vento do sendero (vide Marchant apud Mistral). Ar fresco, ressoar das flores, Senhor(a) da leveza. Eis teu nome, emprestado nome, leito de vida (quem diz que Ofelia morreu?), rio que banhas as flores, todas as flores. Contrato de alegria e do bem que se faz sem querer, ou seja, condição de possibilidade do pensar, necessariamente, da festa do pensar (genitivo subjetivo, Holzapfel dixit!)... en fevereiro carnaval do pensar?

"Al día siguiente, encuentro inesperado, tantos meses después, con Soledad Sola; su alegría, profecía sobre ella que vi cumplida - que a veces uno también hace el bien, incluso sin quererlo" (P.M, p. 321).

[Pintura: Ophelie, John Everett Millais robou a modelo e os traços de Dante Gabriel Rossetti].

 

 
Notas metodológicas. Cuestión fundamental en juego: la fiesta del pensar, Holzafel, la amiga-flor (y nuestros contratos), doravante Soledad Sola, y la máscara ('a mais cara') de Marchant, quien presta un nombre poco casual a un encuentro casual, Soledad que estás Sola, desolación ausente en Desolación. Soledad que estás Sola allá en los cielos (nunca aqui en la tierra), santificado sea tu nombre... ver el juego de Marchant con el Gato Murr. Parece que reza una oración cuando se refiere a él. Creo, en este sentido, que las oraciones (declaraciones de fe, como la fe de erratas, "unica fe que nos va quedando" (P.M., p. 61, 179) son fundamentales para el desarrollo e Sobre árboles y madres.