[Delicado desespero IV]
Essa tarde lembrei da minha recente leitura de um dos micro-contos de Delicado desespero. Veio a mim prístina, quase que tendre, a imagem da velhice retratada no filme Amour (2012).
Retrato
Observava-o a face modorrenta da velha das inúmeras horas. Frugais as frutas de sua fruteira frustravam-se frente à frouxidão da boca fechada. Dentes serrados de resina bamboleavam na dentadura densa do descabido velho. O chá percorria a boca fremindo na busca incessante pela baba da velha. Agora enterrada. Dá boa noite aos vermes. Acalenta as formigas que a levam pedaço a pedaço terra adentro. Quente queimava-lhe os frágeis dedos a quentura da água querida. Esbarrão despropositado na pia de granito gracioso. Aguardou ainda o estertorar da porcelana antes de desfazer-se rumo ao fim. Lá se vai a última lembrança da velha. Migalhas de recordações esparramadas restaram-lhe no chão. Catou. Colou cada caco com a cola do coração. Perdeu a xícara sua asa para voar. Ganhou cabelos brancos em microscópicas poeiras pérfidas. Da xícara fez o retrato de sua falecida. Colocou-a emparedada na sala de estar. Por medo nunca arrastou o sofá. Quem sabe que lembrança feita pó o faria espirrar.
[Fotografia de Emmanuelle Riva: Captura de Amour (2012) de Michael Haneke]
[Retrato, in Caio Russo. Delicado desespero de beija-flor em voo, p. 104]



