Mostrando postagens com marcador Caio Russo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Caio Russo. Mostrar todas as postagens

julho 10, 2022

Estertores da velhice

[Delicado desespero IV]



Essa tarde lembrei da minha recente leitura de um dos micro-contos de Delicado desespero. Veio a mim prístina, quase que tendre, a imagem da velhice retratada no filme Amour (2012). 


Retrato

Observava-o a face modorrenta da velha das inúmeras horas. Frugais as frutas de sua fruteira frustravam-se frente à frouxidão da boca fechada. Dentes serrados de resina bamboleavam na dentadura densa do descabido velho. O chá percorria a boca fremindo na busca incessante pela baba da velha. Agora enterrada. Dá boa noite aos vermes. Acalenta as formigas que a levam pedaço a pedaço terra adentro. Quente queimava-lhe os frágeis dedos a quentura da água querida. Esbarrão despropositado na pia de granito gracioso. Aguardou ainda o estertorar da porcelana antes de desfazer-se rumo ao fim. Lá se vai a última lembrança da velha. Migalhas de recordações esparramadas restaram-lhe no chão. Catou. Colou cada caco com a cola do coração. Perdeu a xícara sua asa para voar. Ganhou cabelos brancos em microscópicas poeiras pérfidas. Da xícara fez o retrato de sua falecida. Colocou-a emparedada na sala de estar. Por medo nunca arrastou o sofá. Quem sabe que lembrança feita pó o faria espirrar. 




[Fotografia de Emmanuelle Riva: Captura de Amour (2012) de Michael Haneke]

[Retrato, in Caio Russo. Delicado desespero de beija-flor em voo, p. 104]

 


junho 05, 2022

Santa Ceia [Delicado desespero, III]



 

Santa Ceia

Motores de ônibus retumbavam contra os enregelados gambitos. Andrajos cobriam-lha como monge excomungado da ordem. Consumia-se nele a fome. Fogos desciam e subiam: iluminavam-no desde dentro. Passo. Passo a passo. Pegada. Pegada a pegada. Escondidas ficavam sobre o duro concreto as tênues marcas de seus pés. Não havia lastro de existência. Só a imagem curvilínea delineada na porta de vidro do barbeiro. Desses de rodoviária. Desses que fazem barba, bigode. Os chinelos agarravam-se com todas as forças às finas tiras, travavam verdadeira cruzada para não arrebentarem. Feito imagem refletida em sujo vidro. Esquálido. Cisco de vida incômodo no olho do mundo. Sendo a efígie que era esgueirava-se por entre os Corpos corpulentos encorpados pela comida caudalosa servida em cumbucas fundas fundíssimas forradas feitas e fundidas de Corpos. À procura do cliente almejado sapato a ser engraxado. Deslizava folha de jornal escapada e levada pela lufada de ar. Voava mais do que andava. Medo. Concorrência grande. Outros da estirpe competiam os sapatos. Sobrava da raça. Faltava sapato. Faltava corpo para impor-se. Faltavam músculos. Faltavam braços. Pernas para concussão no inimigo. Faltava roupa. A pele macilenta esticada sobre os ossos dava-lhe um ar de relíquia. Pedaço de santo feito menino. Deveria aguardar junto às catedrais: gárgula com olhos metonímicos: o soar da trombeta no dia do juízo. Mulheres Homens todos observavam sem enxergá-lo. Acostumado aos restos de mesa das migalhas esboroadas espalhadas aqui lá acolá. Perito em ajuntar restolhos que pareciam perdidos ao esbanjador. Encontrou por fim o cliente, não o benquisto. O mais simples. Humilde. De parcas gorjetas. Do ombro desliza não sem deixar o ardor da madeira sobre sua carne ecoar. A pequenininha caixa de engraxate. Sua escovinha e graxa devidamente organizadas. Era um executivo. Um burocrata com sua papelada em ordem. O que o distinguia de seus pares era somente Fome. Lentamente passou a graxa. Deslizou a escova. Lustrou o sapato como se limpasse taças do mais fino cristal belga. Havia algo de Caravaggio em suas escovadas. Um realismo desesperadamente religioso. Cruelmente religioso. Como São Tomé ao espicaçar ingenuamente as chagas do mestre. Terminada a empreitada descansou no sétimo minuto de serviço. Tremeluzia em sua face o suor de todos os pobres. De todos os meninos esfomeados preenchidos pelo éter vital. Pela vontade de um não-sei-o-que que os impulsiona: vida talvez vida quem sabe vida que vida? Ganhado os trocados aguardava-o na barraca de frente ao lado do guichê um grande tacho de sopa com carne moída requentada com sobras de pão de dois dias. Socialista dirigiu-se a maitrê do restaurante e dispensou garçons: nada de a la carte servir-se-ia ele mesmo. Ao chegar ao palato o pão tinha gosto de angústia. Lágrimas. Sudorose. Perda. Futuro transubstanciado em pão. Como menina que furtivamente rouba as maquiagens da mãe experimentando o pecado da vaidade pela primeira vez. Na antecipação de um futuro borra sua boca pela primeira vez. Deixa que o pó lhe marque no rosto seu trajeto. Pó da terra. Observa-se no espelho maravilhada com o títere que a observa nela mesma presa pelas linhas. Chacoalhada. Levemente inclinada. Deixa-se cair no chão pois dele não passa. Há de se erguer ao mando do Mestre. Encaixar-se-á em seu grilhão. Mal sabia que ensaiava a pequena sua tragédia de adulta. Se não o Céu ao menos o Chão. Via o pequeno seus lampejos do porvir evolados do pão repartido. Via inverter-se o tempo para cada uma das coisas da terra. Adiantava-se sobre o relógio. Dava voltas voltas e mais voltas nos ponteiros. Trilhava anos-séculos de trabalho em dias. Seu trabalho também era o exemplo de uma vontade de adiantar o tempo. Mas nele não havia seu pai arquétipo: era um ele mesmo que voltava ao presente para esticar-se ao futuro. Exemplo de si mesmo para si mesmo enquanto centelha de si mesmo no futuro. Viajante estrangeiro no presente. Mas era também comida. Tinha um sabor que só a fome a espera a expectativa e a incerteza do comer ou não comer temperam a comida edulcoram seu sabor e dão relevo as suas cores. Um tipo peculiar de chiaroescuro: do cinéreo tom da carne ao rubor do molho fervente. Escorria o caldo. Escorria o elã. O sangue vertido em vinho havia de preenchê-lo. Por quarenta dias e quarenta noites perambulou pela rodoviária: alimentado pelo pão ázimo.


[Caio Russo. Delicado desespero de beija-flor em voo, p. 23-25]

[*Pintura: Caravaggio. Cena in Emmaus]

maio 24, 2022

Delicado desespero, II

 

Delicado desespero de beija-flor em voo 

Plúmbeas plumas a planar. Antes de raiar calçava as chinelas. Pé ante pé ia à cozinha. Preparava antes o café de seu amigo. A porção de açúcar diluída em água. Enchia o potinho de plástico. Amarelas e vermelhas flores que nunca murcham. Em arabescos cuidadosos desenhava na janela seu voo abstrato. Enternecia o velho. Tão diminuto. Pesava tão pouco. Delicadeza da mãe natureza provida de asas. Eterna criança entre os pássaros. Admirava-o esse ornitólogo amador. Desesperado voava como quem morre. Angustiado o coração de chumbo trepidava em seu peito. Podia ser o voo sem volta. Robusto em asas de concreto pairava no denso céu nublado. Nadava em meio às impiedosas lufadas de ar matinal. Resistia a ave ao seu ominoso organismo ininterrupto. Violentava a si mesma na beleza do desassossego.  


[Em obra homônima, Caio Russo]

maio 23, 2022

Ciúmes [Delicado desespero, I]

 

 

Segue aquele que, acredito, representa o conto-poema melhor elaborado da coleção: Ciúmes

 

<<

Que seria aquilo entre meus dedos? Viscoso. Aderente, como graxa de sapateiro. Lustra-móveis que do mogno retirava o brilho escondido pela grossa camada de poeira. Deixada pelo tempo. Lustrava todos os móveis de seu petrificado quarto. Que seria aquilo entre meus dedos? Elástico, escarlate. Pegajoso. Beirava no nojento. Que havia de ser? Que era pois? Não sei se sei bem. Creio que plasma sanguíneo. Lápis de cor indelével na mão da cara amada - Você é um escroto, como você pode fazer isso? Quem você é? Seu ridículo ... Seu baixo ... Com seus gritos continuava a fazer com que meu borbulhante sangue saísse pelos cantos dos dedos. Arrancava nacos. Filés inteiros com meus dentes. Ajudava com a outra mão. Ajudava a mutilar meus outros dedos com outros dedos. Borbulhava a me olhar a bolha de sabão rubra. Balbuciava eu. Mas não sei. Que era pois? Como observar seus sapatos sem saber por onde induziram seus pés. Cada peça de roupa sem conhecer sua história plangente. Jocosa. Em cada peça um sorriso do desconhecido. Não haveria de saber quantas mãos alisaram suas peças despretensiosamente. Longamente. Finos dedos a dançar como arlequim endiabrado. Volúpia dos desconhecidos que cutuca o ciúme a fim de acordá-lo da sua rede de dormir. Intermitente me era parar. Observar cada peça desconhecida desse quebra-cabeça de citações infindas. Nem por isso deixava de montar. Montava. Montava peça a peça. E em mim ela montava. Dos nacos de meus dedos. Dedo a dedo. Perdi minhas mãos inteiras em sua boa imperdoável. Tragado fui para seus pulmões. Lentamente formei fraca fumaça. Farinha integral antes. Moeu. Moeu a sua moenda. Sem nutrientes. Bela. Branca. Baça. Nada. Ficou em pedaços entre as roldanas da trepidante maquina humana.

>>

 

[Caio Russo. Delicado desespero de beija-flor em voo]

 

 

 

Delicado desespero de beija-flor em voo

 

 

Coleção de várias dezenas de contos breves, ou poemas, esse livro custou-me lágrimas dilacerantes. Dessangrou-se meu coração inúmeras vezes. Percurso difícil por longos anos em que não conseguia acabar com a leitura. E ainda não terminei. Como reza o poema Conta conto, "jamais", de fato, "terminei um livro"

O traço mais marcante da coleção, aquele que abre perigosas fendas na pele, tem a ver com a articulação cirúrgica entre delicadeza e crueldade. Sim, trata-se de uma sorte de descrição meticulosa das meiguices do cotidiano e a fatalidade de onde escorrem. Engraxador esfomeado transubstanciado em pão furtivo (Santa ceia); violência ofegante do beija-flor em voo (Delicado desespero...); tragédia da dona que ergue, em ciclos intermináveis, uma catedral de limpeza em casa (Casa-de-dona). 

Reiteram-se, sem religioso rigor e com algumas exceções, excursos com personagens que multiplicam as imagens de cada poema (Santa Ceia, Ciúmes); que fazem do conto digressão incessante. A maioria das vezes, perto do final de cada poema, precipitam-se objetos inversos. A elaboração inicial se mostra preparo alegórico de um final abrupto, seco. Violento como olhos carbonizados (Sol), como estertor mortal no piso de porcelana (Retrato).

Remarquable, aussi, a última parte, Enrugadas palavras em liso papel, em que não poucas vezes o autor ensaia uma teoria literária. Papel das mãos, trabalho da caneta, exaustão do escritor que escreve com as narinas, tinta feita de lágrimas, natureza da leitura. 



[RUSSO, Caio. Delicado desespero de beija-flor em voo. São Paulo: Chiado editora, 2015]

[Fotografia: Roberto D.S. Nascimento (usada para capa do livro), ver Flickr]