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setembro 16, 2016

Amor de arqueiro




"Me matou em outra vida, amor?" perguntou ela.

Sabia dos pesadelos,
dos mortos de cada noite
do rosto difuso e desconhecido
do último respiro, suspiro
das vítimas.

"Apenas uma vez trucidei alguém, as outras só atirei neles"

Qual essa poesia?
Por que esses corpos nas tuas mãos e olhos?
Exatamente onde atiravas, Cneo?

Em fuga, sempre,
aprendestes a arte de atirar em movimento.

Por isso.
Não conheces o rosto
de tuas vítimas.

Mas
O que tem a fazer um pobre homem face à uma mulher genial?

Ela, o olhar.
Ela tem rosto
É o arquetipo de qualquer rosto.

Olhar, colo, um coração a palpitar.
E uma pergunta.
Pergunta de amor, pergunta de medo, pergunta de ódio.

Matei-te em outra vida, por isso,
Agora es minha mãe.
Castigo, ameaça, um rosto e um olhar.

E um coração a palpitar

Amo-te de amor de arqueiro.
Hei de atirar no teu coração.
Como já fiz em outra vida
Farei pela eternidade
de novo.

Hermann queimava suas mães.
Eu atiro nelas.

Medo?
De quê?
Tenho em mãos um segredo.

Mesmo perdido, aguardo
Paciente

Tenho um segredo, um arma.
Um método.
Só atiro uma vez.
Uma vez que se repete pela eternidade.

Amei-te com amor de arqueiro.

Mas
O que tem a fazer um pobre homem face à uma mulher genial?*

Olhaste primeiro.
Prometeste colo e cuidados.



[Fotografia: Alex Bowle, Women of the IRA, Northern Ireland, 1977]
* A frase se inspira no artigo "Qué puede hacer un pobre hombre frente a una mujer genial?", que Patricio Marchant dedica a Gabriela Mistral.

agosto 08, 2016

Marchant. Rascunhos IV. Exceção erguida


APÉNDICE SEGUNDO
EL DOBLE RITMO
(p. 338) 
Recuérdese la teoría de Ferenczi. En el acto sexual, el hombre, idéntico a su sexo, él es su sexo, se introduce en la mujer; generosidad de la mujer, sin su consentimiento no hay acto sexual, insistencia de Groddeck que señalamos; la mujer, entonces, le da, al hombre, la erección, la erección adecuada; esto es, la mujer enamorada siente la erección del hombre como erección para ella. En el acto sexual, entonces, el yo del hombre, su alma, su espíritu, su consciencia se siente orgánicamente, es orgánicamente, su yo es un cuerpo, y necesidad profunda del hombre de sentir asegurado así su ser.
[Patricio, ¿o que aconteceu? ¿Cadê o interesse pelas amantes-mães que iriam cuidar (vigiar na vigília) do teu sono? ¿Agora deixas Hermann e voltas a Ferenczi? ¿As flores te lembraram que há vida para além desse leito de morte onde tuas amantes (ou seja, tuas mães) te protegem, enquanto dormes, dos teus pesadelos?]
Acredito que na lógica de constituição de Sobre árboles y madres, este apêndice tem um papel crítico relevante. Não sei se daria para sustentar uma exceção, um território desconhecido para a teoria do amor da mãe, mas o seguimento cuidadoso do ato sexual parece ameaçar o protagonismo, quase absoluto, atribuído às instâncias post-coitais dentro dessa teoria. O que interessa do amor da mãe-amante é que ela é leito para o homem. Ela, com efeito, ao se oferecer às artes amatórias, se oferece também como colo onde descansar e dormir e, dessa maneira, se oferece como leito arquetípico, ou seja, como leito de morte. Daí sua leitura dos Sonetos de morte de Gabriela Mistral. Entretanto, este apêndice dedicado fundamentalmente a Ferenczi tematiza o que justamente esse leito colocava entre parêntesis: a ereção. O descanso após o coito pressupõe uma suspensão, um parêntese, ou qualquer outra forma (inclusive, as mais definitivas) de negação da ereção. E, no entanto, aqui vemos a um Marchant que dedica uma ode aos desdobramentos orgânicos do homem no ato sexual. Possibilidade de um amor sem mães? Quem sabe. Apesar do papel hegemônico que ocupa essa forma do amor, há exceções notáveis no seu breve percurso escritural. Até onde minha vista me acompanha, podemos elencar algumas: as flores à beira das sendas [pergunto: será que elas são o "modelo" da generosidade? casualidade interessante, pois as flores à beira do caminho fazem o bem sem querer, ou seja, por pura e simples generosidade] e as alunas [Angélica, modelo de um amor que se faz sem a mãe e que, assim, permitiria abrir as criptas, modelo do segredo de mães guardado no leito definitivo]. 


agosto 03, 2016

Rascunhos III. "Soledad Sola" sive Das flores do sendeiro



DESOLACIÓN CINCO
- último nombre -

"Prestado tu nombre, prestado tu tiempo; aquí escribo el fin del plazo, del contrato, de ese préstamo: prestada lealtad, escritura, después –Cecilia. [...] Al día siguiente, encuentro inesperado, tantos meses después, con Soledad Sola; su alegría, profecía sobre ella que vi cumplida –que a veces uno también hace el bien, incluso sin quererlo."

"Fazer o bem sem querer", acredito, seja um assunto mais interessante e, talvez, absolutamente alheio daquele outro que reza: "fazer o bem sem olhar a quem". Este último pressupõe o bem, o instaura como o ponto de partida. O que está em jogo é o sujeito da atribuição... questão de economia. Como se o bem fosse mercadoria digna de distribuição e aqui estivesse em xeque o grande esforço de não decidir, de evitar o inevitável. Tratando-se de bens, distribuir resulta inevitável, mas eis aqui alguém tão bonzinho que até fará par nós os esforço de cobrir os olhos e fazer o bem sem decidir quem será o favorecido. 

Bondade redobrada, dessa vez, bondade justa porque bondade ignorante. 

Mas o que me interessa desta frase de Marchant - quem, lembremos, reivindica o papel superior dos maus, os únicos capazes da força da transformação! - é uma tentativa riscada de se internar na anulação do circuito distributivo da bondade. O bem que distribui "bens", circuito do "dom" que nos mantém presos à devolução. Dívida ainda mais perversa se consideramos que o sujeito credor, neste caso, é qualquer, ou, o que vem a ser o mesmo, todos. Devemos o bem a todos, por isso o fazemos cegos sem olhar a quem fazemos. Paradoxalmente, parece muito com essas frases de boa vontade expressadas nos calendários de crianças. Ay, meu deus! quantos calendários desses eu guardava dentre minhas anotações de adolescência. Os filósofos antes da revelação da verdade acostumam ser padres (aff!), ou, tem outros piores, se dedicam às artes edificantes da bondade e colecionam frases bondosas em fichinhas cor de rosa. 
 
No entanto, Marchant sugere a presença de um bem que seria feito sem querer, o bem inesperado não pelo acaso da cegueira distributiva, senão pelo acaso intencional. Fazer o bem sem intenção de fazer o bem. Fazer o bem sem fazer o bem. Fazer o bem próprio de uma flor à beira da senda que se dá cheia de perfumes. Se dá sem decidir, se dá porque faz parte da sua natureza se dar. Marchant coloca em jogo uma possível, inesperada, hipotética, alternativa à mulher-mãe. A mulher-mãe da-se completamente, mas garante a recuperação de tudo o que entrega. A mulher-mãe espera pelo filho no leito de morte. Ela é a amante transfigurada porque eles, filhos ingênuos, nunca fogem do colo materno. Lendo a poesia de Gabriela Mistral, Marchant organiza essas dimensões sobre a figura da árvore. Galhos bem organizados aos quais manter-se agarrado, ligado, colado. Nunca saímos do colo materno, o procuramos nas amantes da série, e vimos encontrá-lo ao momento de morrer, no leito materno de volta. 

Mas...

Haveria a possibilidade de surgirmos para além dessas árvores? E as flores da senda, as flores que, sem querer, vão e voltam? Soledad Sola, Solidão só, o nome que Marchant dá a uma dessas flores que, de certo, deu de seus melhores perfumes ao escritor, sem querer, como por acaso, alguma noite aleatória. Nada do que se prender, nada de colo, nada de galhos, nada de árvores. Apenas um bem por acaso. Um bem deslocado do circuito da bondade. Um bem que só os maus - uma mulher tão má que não consegue ser mãe do seu amante! - seriam capazes de dar, e que deram porque não era para dar. Deram, também, por acaso.  



[Pintura: Renoir, Sendeiro del jardín de Giverny, 1900]