O gênio maligno de Hopper não consiste no poder de dissuadir-nos da fragilidade de nossas mais profundas convicções, senão na descontinuidade do tempo. A terceira meditação é bem mais sinistra do que a primeira. O abismo absoluto que separa um momento do outro e que ameaça nossa existência sufocando-a, exprimindo o azeite pelo qual se desliza o tempo. Shirley sabia muito bem disso. O filme retrata de maneira magistral a questão: as imagens são insuportáveis porque o tempo parou em Hopper. Sem continuidade temporal não haveria continuidade para a evidência do Cogito e, pior, como dizia Tournier, não haveria outrem.
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abril 15, 2017
Doces sonhos
O livro de cabeceira para transformar nos cauchemars em doces sonhos:
Proust, La prisionnière
[Fotografia: Bruce Gilden, New York]
setembro 16, 2016
Amor de arqueiro
"Me matou em outra vida, amor?" perguntou ela.
Sabia dos pesadelos,
dos mortos de cada noite
do rosto difuso e desconhecido
do último respiro, suspiro
das vítimas.
"Apenas uma vez trucidei alguém, as outras só atirei neles"
Qual essa poesia?
Por que esses corpos nas tuas mãos e olhos?
Exatamente onde atiravas, Cneo?
Em fuga, sempre,
aprendestes a arte de atirar em movimento.
Por isso.
Não conheces o rosto
de tuas vítimas.
Mas
O que tem a fazer um pobre homem face à uma mulher genial?
Ela, o olhar.
Ela tem rosto
É o arquetipo de qualquer rosto.
Olhar, colo, um coração a palpitar.
E uma pergunta.
Pergunta de amor, pergunta de medo, pergunta de ódio.
Matei-te em outra vida, por isso,
Agora es minha mãe.
Castigo, ameaça, um rosto e um olhar.
E um coração a palpitar
Amo-te de amor de arqueiro.
Hei de atirar no teu coração.
Como já fiz em outra vida
Farei pela eternidade
de novo.
Hermann queimava suas mães.
Eu atiro nelas.
Medo?
De quê?
Tenho em mãos um segredo.
Mesmo perdido, aguardo
Paciente
Tenho um segredo, um arma.
Um método.
Só atiro uma vez.
Uma vez que se repete pela eternidade.
Amei-te com amor de arqueiro.
Mas
O que tem a fazer um pobre homem face à uma mulher genial?*
Olhaste primeiro.
Prometeste colo e cuidados.
[Fotografia: Alex Bowle, Women of the IRA, Northern Ireland, 1977]
* A frase se inspira no artigo "Qué puede hacer un pobre hombre frente a una mujer genial?", que Patricio Marchant dedica a Gabriela Mistral.
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