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maio 21, 2016

   Criar um blog acreditando que não iria falar de você. Sempre criamos coisas acreditando. Sempre irei acreditar... E aí acontece que abro as caixas onde estão as linhas, as agulhas e as lembranças voltam, caem algumas lágrimas, me entrego ao pranto que há alguns anos me visita em silêncio. Antes era o Fado, mas meu Destino encontrou-se (confundiu-se) nos mares do Atlântico e agora fala português. Hoje te lembro nas letras de Lucybell. 

    Esse cabelo cacheado e a capacidade de flertar com Lúcifer e seu jogo de luzes. Nunca falamos sobre isso. Nos limitamos a queimar nossa poesia e a ouvir, as vezes, poucas vezes, algumas músicas. Alter ego (desejo desses cabelos cacheados [nossa, agora todos temos cabelos cacheados!]) que transforma traços dessa (qual de todas?) poética em ritmos por todos conhecidos, por ninguém questionados, por ninguém compreendidos. 

Eis a letra:

Sin tu voz me pierdo en la nieve
Sin tu voz me visto de pena
Sin tu voz caliento cual piedra
Sin tu voz me pierdo en la nieve

Siempre he de creer en ti

Sin tu voz soy solo cadenas
Sin tu voz me visto de pena
Sin tu voz detesto esta escena
Sin tu voz soy sólo cadenas

Siempre he de creer en ti

Siempre he de creer en ti
Siempre he de creer en ti


   Essa poética. Marchant insistindo em cada palavra escrita, em cada lapsus, capturando minha errância recente. Me pergunto como Claudio Valenzuela transforma, reitera ou copia Gabriela Mistral. Como esta neve pode ser o silencioso olhar de Deus (Marchant. Sobre árboles y madres, p. 278). Não o êxtase que a identifica, a ela, com a neve, senão o olhar de Deus. O juízo de Deus que, como a neve, congela e traz o espasmo, a culpa, inevitável (Claudia, por que te obriguei a ir embora?, Cl1-Cl2, p. 63). Entretanto, tua voz que sempre me salva volta para me fazer acreditar. No quê? Em o que iria acreditar agora? Sei lá. Há um saber que não posso ter, não sou a árvore que se sabe flor.

   Tua voz, doce como a neve que cai, enquanto cai (distinção de Marchant entre as duas formas da neve). Depois, só a morte, o acúmulo que vira pedras. "... caliento cual piedra" porque no caliento, porque me he transformado en la imagen congelada (de) por la mirada de Dios (Medusa, qué haces aquí?).

    E a cena. Cena que odeio, cena que me constitui, no entanto. Qual cena? Ainda não sei, só sei que sempre hei de crer em você, que sempre irei acreditar...      

[Pintura: Gustav Klimt. Golden Tears


PS: Hipótese: a cena é abrir as caixas. Após a mudança de canto, de casa, de mulher, sempre chega o momento de abrir as caixas

PS2: Maravilhoso conceito de poesia em Abraham e Marchant. Estudar esse conceito (,é) preciso

dezembro 12, 2015

Dizer é preciso...


Quando viver não é preciso. Pas besoin de dire... ou o que vem a ser a mesma coisa: dizer é preciso, navegar é preciso. Cneo Pompeio Magno um dos nomes emprestados de Pessoa para enunciar a falta de nome de quem, inominada, caiu no esquecimento e, imemorial, virou pele e entranha. Mar, Medusa, que recebe todos nossos mortos.

[Pintura: Thédore Géricault, Le Radeau de La Méduse (Louvre)]

[PS. Como esquecer a presença continental do quadro no Louvre? Vontade de ser abraçado pelas águas cruéis do naufrágio. Enquanto, lá fora, ameaçando o frio outono de Paris (novembro, 2009)]