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junho 28, 2016

Good bye, Comte-Sponville

Antes de deixar esse texto, esse Impromptus, algumas palavras. Pouco ambicioso, por vezes maravilhoso e desafiante, irônico e simples, como essa febre que me lembra os descuidos com a gripe, como essa solidão da janela. Delicado como o aroma detalhado do chá, envolvente como o Blue in Green que ouço enquanto olho para a cidade, para as vidas repetidas e aquelas não tanto. Para os mesmos carros e para os acabaram de chegar do Paraguai. Serenidade, ironia, honestidade e amargor de um Lucrécio, Epicuro, Montaigne. Por vezes as lições inesquecíveis de Spinoza e uma divertida incompreensão de Nietzsche.  

As dores de algumas perdas, as dores nas pernas. Enquanto Miles Davis captura um não sei o quê, de eterno, inabalável nessas lembranças. Também, a superficialidade gostosa dessa adolescencia de bares e running que me visita depois dos 30. A vaidade de apreciar como os óculos de sol novos e o cabelo selvagem faziam corar as atendentes da padaria. Selvagem porque não lavei hoje, a febre não o permitiu. Amanhã, cabelo certinho, elas irão olhar diferente. Banalidade do que passa, infinita felicidade de ver as cores nas bochechas, o sorriso charmoso, diferente dos corriqueiros que acompanham nosso divino pão de cada dia. Isso que tantos amigos - desses que conhecemos através dos livros e blogs, e desses que trocam cartas conosco - me ensinaram apreciar. Apreciar e deixar passar. Algum dia essas pernas não irão desbravar as ruas, esses pulmões não terão a força que tiveram a semana passada na última prova de resistência. Bendita advertência dessa febre. Anuncio de futilidade que perpassa essas ideias. 

E para deixar o clima mais interessante, lendo Kant. O Kant da primeira crítica. Com uma febre que excita meus mais especulativos delírios, enquanto ouço o senhor dos limites. Do jogo legítimo da razão. Só para me lembrar que se imagino que esas dores não irão voltar é porque estou delirando, que se acredito que essa juventude será para sempre é porque tenho esperança e que se não paro de beber limonada é porque tenho medo. Delírios que os limites da razão, ou a sabedoria de Bento, transformam em risada e brincadeira. 

Chega de falar, vamos ouvir um pouco do texto com que Sponville volta ao silêncio dessa minha biblioteca tão charmosa e desconhecida. 

"¿Si el reino está en nosotros y si nosotros estamos en el Reino, para qué la fe y la esperanza? Ya nada hay que creer, todo es para ser conocido. Ya nada hay que esperar; todo es para ser amado. Esto concuerda con la lección de los místicos de todos los países. Nâgârjuna, por ejemplo: "Mientras hagas una diferencia entre nirvana y samsâra estás en el samsâra". Mi Cristo interior diría gustosamente lo mismo: "Mientras hagas una diferencia entre el reino y este mundo de dolor, estás en este mundo de dolor". Es la Buena Nueva de los Evangelios, tal como los leo: ya estamos salvados. Pero una nueva singularmente dura: no deja nada por esperar. Que la soporte el que pueda, y apenas podemos. La esperanza es más fácil, la religión es más fácil. Pero "hay que atenerse a lo difícil", como dijo Rilke: esto señala el camino, donde ya estamos, donde avanzamos como podemos, en el cansancio, en el sufrimiento, en la angustia, a vezes [kkkk] en la alegría. Es lo que llamé la sabiduría de la desesperanza, que Cristo llamaría la sabiduría del amor, y por supuesto que tiene razón. Nada que creer, nada que esperar. No hay más salvación que vivir ni más salvación que amar: el reino está aquí abajo; la eternidad, ahora."    

[André Compte-Sponville. Impromptus. Santiago: Andrés Bello, 1999, p.167]
[que saudade de Tu, que me deste este livro!]

[Imagem: Filme, Renoir, 2012]      

maio 21, 2016

   Criar um blog acreditando que não iria falar de você. Sempre criamos coisas acreditando. Sempre irei acreditar... E aí acontece que abro as caixas onde estão as linhas, as agulhas e as lembranças voltam, caem algumas lágrimas, me entrego ao pranto que há alguns anos me visita em silêncio. Antes era o Fado, mas meu Destino encontrou-se (confundiu-se) nos mares do Atlântico e agora fala português. Hoje te lembro nas letras de Lucybell. 

    Esse cabelo cacheado e a capacidade de flertar com Lúcifer e seu jogo de luzes. Nunca falamos sobre isso. Nos limitamos a queimar nossa poesia e a ouvir, as vezes, poucas vezes, algumas músicas. Alter ego (desejo desses cabelos cacheados [nossa, agora todos temos cabelos cacheados!]) que transforma traços dessa (qual de todas?) poética em ritmos por todos conhecidos, por ninguém questionados, por ninguém compreendidos. 

Eis a letra:

Sin tu voz me pierdo en la nieve
Sin tu voz me visto de pena
Sin tu voz caliento cual piedra
Sin tu voz me pierdo en la nieve

Siempre he de creer en ti

Sin tu voz soy solo cadenas
Sin tu voz me visto de pena
Sin tu voz detesto esta escena
Sin tu voz soy sólo cadenas

Siempre he de creer en ti

Siempre he de creer en ti
Siempre he de creer en ti


   Essa poética. Marchant insistindo em cada palavra escrita, em cada lapsus, capturando minha errância recente. Me pergunto como Claudio Valenzuela transforma, reitera ou copia Gabriela Mistral. Como esta neve pode ser o silencioso olhar de Deus (Marchant. Sobre árboles y madres, p. 278). Não o êxtase que a identifica, a ela, com a neve, senão o olhar de Deus. O juízo de Deus que, como a neve, congela e traz o espasmo, a culpa, inevitável (Claudia, por que te obriguei a ir embora?, Cl1-Cl2, p. 63). Entretanto, tua voz que sempre me salva volta para me fazer acreditar. No quê? Em o que iria acreditar agora? Sei lá. Há um saber que não posso ter, não sou a árvore que se sabe flor.

   Tua voz, doce como a neve que cai, enquanto cai (distinção de Marchant entre as duas formas da neve). Depois, só a morte, o acúmulo que vira pedras. "... caliento cual piedra" porque no caliento, porque me he transformado en la imagen congelada (de) por la mirada de Dios (Medusa, qué haces aquí?).

    E a cena. Cena que odeio, cena que me constitui, no entanto. Qual cena? Ainda não sei, só sei que sempre hei de crer em você, que sempre irei acreditar...      

[Pintura: Gustav Klimt. Golden Tears


PS: Hipótese: a cena é abrir as caixas. Após a mudança de canto, de casa, de mulher, sempre chega o momento de abrir as caixas

PS2: Maravilhoso conceito de poesia em Abraham e Marchant. Estudar esse conceito (,é) preciso