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março 21, 2025

Navegar é preciso

 

 

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
"Navegar é preciso; viver não é preciso."

Quero para mim o espírito desta frase, transformada
A forma para a casar com o que eu sou: Viver não
É necessário; o que é necessário é criar.

Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande, ainda que para isso
Tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso
Tenha de a perder como minha.

Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho
Na essência anímica do meu sangue o propósito
Impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
Para a evolução da humanidade.

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça. 

 

Fernando Pessoa

[Pintura: William Turner. A Ship in Distress and a Smaller Boat (sketch), circa 1805]

setembro 16, 2016

Amor de arqueiro




"Me matou em outra vida, amor?" perguntou ela.

Sabia dos pesadelos,
dos mortos de cada noite
do rosto difuso e desconhecido
do último respiro, suspiro
das vítimas.

"Apenas uma vez trucidei alguém, as outras só atirei neles"

Qual essa poesia?
Por que esses corpos nas tuas mãos e olhos?
Exatamente onde atiravas, Cneo?

Em fuga, sempre,
aprendestes a arte de atirar em movimento.

Por isso.
Não conheces o rosto
de tuas vítimas.

Mas
O que tem a fazer um pobre homem face à uma mulher genial?

Ela, o olhar.
Ela tem rosto
É o arquetipo de qualquer rosto.

Olhar, colo, um coração a palpitar.
E uma pergunta.
Pergunta de amor, pergunta de medo, pergunta de ódio.

Matei-te em outra vida, por isso,
Agora es minha mãe.
Castigo, ameaça, um rosto e um olhar.

E um coração a palpitar

Amo-te de amor de arqueiro.
Hei de atirar no teu coração.
Como já fiz em outra vida
Farei pela eternidade
de novo.

Hermann queimava suas mães.
Eu atiro nelas.

Medo?
De quê?
Tenho em mãos um segredo.

Mesmo perdido, aguardo
Paciente

Tenho um segredo, um arma.
Um método.
Só atiro uma vez.
Uma vez que se repete pela eternidade.

Amei-te com amor de arqueiro.

Mas
O que tem a fazer um pobre homem face à uma mulher genial?*

Olhaste primeiro.
Prometeste colo e cuidados.



[Fotografia: Alex Bowle, Women of the IRA, Northern Ireland, 1977]
* A frase se inspira no artigo "Qué puede hacer un pobre hombre frente a una mujer genial?", que Patricio Marchant dedica a Gabriela Mistral.

janeiro 24, 2016

Navegar é preciso...


Vou começar com um clichê, reza a lenda. Pois tá, reza a lenda de que o general romano, Cneo Pompeu Magno, proferiu a expressão "navigare necesse est, vivere necesse non est" com ocasião de uma perigosa viagem de barco realizada desde Sicília até o continente. O objetivo: levar aprovisionamentos até Roma, que se encontrava cercada pela rebelião de escravos liderada por Spartacus.

A arenga tornou-se lendária, não apenas porque encorajou aos marinhos a empreender viagem em condições adversas, senão também porque para a história romana a decisão de embarcar foi crucial para garantir o sucesso militar da reação do Império. Pompeu, de fato, liderou naquela expedição a terceira das tentativas por recuperar a capital. Venceu o cerco montado pelos escravos e abasteceu a uma Roma que enlanguescia de fome e cansaço. 

Plutarco narra esta façanha na summa biográfica, intitulada Vidas Paralelas, que dedica uma seção a Pompeu. No entanto, a cultura lusófona contemporânea sabe do relato pela apropriação poética, realizada por Fernando Pessoa. Em Navegar é preciso, Pessoa compõe uma ode à sina criativa pela qual oferece sua vida ao engrandecimento da humanidade. Seu corpo, e alma, hão de se transformar em lenha dessa ventura.

Navigar é preciso bem podia ser o nome desse blog, a oferenda que aqui transcrevo. Algo da vontade veemente de arder como a lenha de Pessoa. As vezes, lenta e silenciosa; outras, de voz inflamada. Outro pouco do ensejo de Pompeu, que içou velas diante da evidência do perigo, porque necessário. E sem dúvida, também, algo de Géricault, quem, exprime os inúmeros desdobramentos que o naufrágio gera na alma humana e os diferentes personagens que esta é capaz de criar. 

O blog já destilou abundância. Teve produtos apressados que fermentaram antes de tempo e escoaram pelo ralo. Alguns, poucos, antes de evaporarem, perfumaram o som da minha voz ou enfeitaram o brilho dos meus olhos. E, sim, esse blog já nominou-se Dizer é preciso. Um dia, em trejeitos de censura e prestidigitação, se tornou Pas besoin de dire, uma sorte de "Dizer não é preciso". Quis brincar de carta roubada, de maneira que o que precisava ser mascarado fosse ao mesmo tempo evidente. Tão evidente, que escondido. 

Hoje não sei, ao certo, o que este Pas besoin significa. Por isso, retomo e escrevo. 

Ai, tanto que (não) escrevo! 



[Pintura: Thédore Géricault, Le Radeau de La Méduse (Louvre)]
[Publicado em retrospectiva entre fev de 2016 e mar de 2025]


dezembro 12, 2015

Dizer é preciso...


Quando viver não é preciso. Pas besoin de dire... ou o que vem a ser a mesma coisa: dizer é preciso, navegar é preciso. Cneo Pompeio Magno um dos nomes emprestados de Pessoa para enunciar a falta de nome de quem, inominada, caiu no esquecimento e, imemorial, virou pele e entranha. Mar, Medusa, que recebe todos nossos mortos.

[Pintura: Thédore Géricault, Le Radeau de La Méduse (Louvre)]

[PS. Como esquecer a presença continental do quadro no Louvre? Vontade de ser abraçado pelas águas cruéis do naufrágio. Enquanto, lá fora, ameaçando o frio outono de Paris (novembro, 2009)]