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maio 23, 2022

Delicado desespero de beija-flor em voo

 

 

Coleção de várias dezenas de contos breves, ou poemas, esse livro custou-me lágrimas dilacerantes. Dessangrou-se meu coração inúmeras vezes. Percurso difícil por longos anos em que não conseguia acabar com a leitura. E ainda não terminei. Como reza o poema Conta conto, "jamais", de fato, "terminei um livro"

O traço mais marcante da coleção, aquele que abre perigosas fendas na pele, tem a ver com a articulação cirúrgica entre delicadeza e crueldade. Sim, trata-se de uma sorte de descrição meticulosa das meiguices do cotidiano e a fatalidade de onde escorrem. Engraxador esfomeado transubstanciado em pão furtivo (Santa ceia); violência ofegante do beija-flor em voo (Delicado desespero...); tragédia da dona que ergue, em ciclos intermináveis, uma catedral de limpeza em casa (Casa-de-dona). 

Reiteram-se, sem religioso rigor e com algumas exceções, excursos com personagens que multiplicam as imagens de cada poema (Santa Ceia, Ciúmes); que fazem do conto digressão incessante. A maioria das vezes, perto do final de cada poema, precipitam-se objetos inversos. A elaboração inicial se mostra preparo alegórico de um final abrupto, seco. Violento como olhos carbonizados (Sol), como estertor mortal no piso de porcelana (Retrato).

Remarquable, aussi, a última parte, Enrugadas palavras em liso papel, em que não poucas vezes o autor ensaia uma teoria literária. Papel das mãos, trabalho da caneta, exaustão do escritor que escreve com as narinas, tinta feita de lágrimas, natureza da leitura. 



[RUSSO, Caio. Delicado desespero de beija-flor em voo. São Paulo: Chiado editora, 2015]

[Fotografia: Roberto D.S. Nascimento (usada para capa do livro), ver Flickr]