Mostrando postagens com marcador Albertine. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Albertine. Mostrar todas as postagens

agosto 17, 2022

Deuil en travail

 


 
C’est comme si la pensée, sous l’impulsion de la douleur, se trouvait entraînée dans son propre labyrinthe ; comme si la souffrance trouvait son exacte forme mentale dans l’oscillation interminable des hypothèses, des calculs, et des résolutions contradictoires. […] Dans l’angoisse toute certitude s’effondre et la vitesse de surgissement des représentations divergentes devient incontrôlable. Rien ne s’arrange bien sûr avec la nouvelle de la mort d’Albertine, aussitôt brouillée par ses lettres posthumes et contradictoires. […] Mais il est trop tard, ce sont là les tergiversations d’un fantôme, Albertine est morte, le narrateur est pris dans d’autres contradictions : celles du deuil en travail, où l’on voudrait cesser de souffrir, mais où l’on craint par-dessus tout de ne plus souffrir parce que c’est le dernier lien qui nous rattache à l’objet perdu. Pas d’image ou de sentiment qui ne se retourne en son contraire.

Laurent Jenny. L'effet Albertine
 


[Fotografia: Trilha do Saquinho, Florianópolis, por Amor de la foto, Album Deuil en travail]
 
 

julho 10, 2022

apêndice 17 sobre o segundo paradoxo de Zenão

 


Anne. Sarcástica, cirúrgica, genial!

 

As pessoas que Marcel ama são pessoas em movimento. Como Albertine - sempre correndo para algum lugar de bicicleta, de trem, de carro, num cavalo ou se atirando pela janela; como a mãe de Marcel, eternamente subindo as escadas para dar-lhe o beijo da boa noite; como sua avó, caminhando a passos largos para cima e para baixo pelo jardim todas as noites porque achava saudável, mesmo que estivesse chovendo a cântaros; ou como seu amigo Roberto de Saint-Loup, que num primeiro relance vimos saltitando sobre um banquinho num restaurante a fim de apanhar um casaco para Marcel, sentado à mesa, confuso e trêmulo. Marcel é o centro tranquilo de toda essa atividade cinética, ele é como a flecha alada do segundo paradoxo de Zenão, lançada do arco mas que jamais atinge o alvo porque não se move. Por que a flecha de Zenão não se move? Porque (segundo a explanação de Aristóteles) o movimento da flecha seria uma série de instantes, e a cada instante a flecha percorre o espaço inteiro daquele instante, e isto (Zenão diria) é a descrição da imobilidade. Se puséssemos juntos todos os instantes de imobilidade ainda assim não sairíamos dela [so if you add all the instants of stillness together you still get still]. Ninguém negaria que o romance proustiano flui com o tempo e com flechas disparadas em todas as direções. Mas podemos também imaginar o romance inteiro (em nossa cabeça) como um longo instante imobilizado, pois Marcel leva mil páginas do livro para alcançar o momento em que começa a escrevê-lo. Na última página ele lança sua flecha mas supera Zenão, pois a atira para trás, na medida em que acabamos de ler o romance que ele propõe escrever. Pensar muito tempo em Zenão e seus paradoxos me dá um pouco dor de cabeça, embora eu me divirta com sua argumentação fria. Eis um tiro-antídoto de Zenão disparado pelo devotado erudito proustiano, isto é, o cineasta Chris Marker (Sans Soleil): "Assim é que a história avança, tapando a própria memória como tapamos nossos ouvidos... (mas) um momento imobilizado queimaria como a chama de um filme bloqueado diante da fornalha do projetor".  
 
 
[Anne Carson. O Método Albertine. São Paulo: Jabuticaba, 2017] 
 

fevereiro 20, 2016

Um canto


Um canto, meu canto. Um canto é como uma vida (Deleuze dixit), singularidade que se abre ao horizonte. Há dois anos e meio me lembro 'desterritorializado' num leito de belas, tristes e trágicas lembranças declarando que não sabia, que não queria, que apenas compreendia o que essa palavra significava. Pois é, canto significa lar (juro que, dessa vez, não consultei o Priberam), lugar onde se encontrar, casa. Quando dizemos "minha casa" com referência à casa dos pais, dos avós ou mesmo à casa de infância que provavelmente não existe mais, estamos querendo dizer que há uma esquina, uma dobra no espaço que nos acolhe, que transfora as imagens do universo em afetos de alguém, para alguém. 

Relação dos objetos da foto (leia-se inventário): à esquerda móvel para a T.V. que graças a Deus e a Nossa Senhora não existe nesta "casa" (rs), prateleira (emfim!!) para a biblioteca que deixou de ser itinerante há pouco tempo, estante preta para coisas diversas, suporte para livros em posição diagonal, sofá (onde iria Marcel tramar suas perversões e se lembrar de Albertine?, vide imagem à direita de Proust), uma almofada. E o que não está na foto: eu na minha escrivaninha descrevendo coisas para o blog e preenchendo formulários ad infinitum para projetos que nunca irão ser financiados. Por último, todos os móveis e pessoas (?) incluidas nesta classificação. Dito de outra foma: o não-lugar que ameaça e movimenta todo lugar (Foucault apud Borges, em As palavras e as coisas).