O excerto preferido da leitura diária de Gonzalo Rojas. A imagem escolhida, obviusly, pintura de Rossetti. Logo, as discussões sobre os mistérios da pintura... uma tradução da Ballade des Dames... de Villon e, de novo, de volta a Rojas.
Muerta mi muerta, aclárese todo, admítase
e infórmese que María
Mc Kensie no está ahí en ese cofre
de ceniza, ni en Glasgow
ni en Alcántara mortuoria, que su hermosura
sigue siendo mi adicción, que todavía
y qué importa el Mundo nos reímos del Mundo
fuertes y felices, que va a estallar el Mundo,
que lo que va a estallar es el Mundo.
Y ella en cambio tiene 20, su corazón
tiene 20, su pelo
precioso, su frescor, su aroma
flexible de muchacha blanca, sus rodillas,
esa piel que no habrá, fuera claro
de las noches portentosas hasta las últimas
estrellas en el oleaje pétreo, Atacama
adentro, allá por el 42 de
la Guerra Grande incluyendo su preñez,
el misterio de su preñez, [...]
De El Cofre, in La miseria del hombre (Santiago: Diego Portales, 2010, p.13)
Maria, o Mundo, um cofre e, por que não, uma caixa de música. Motivo medieval, dizem os comentadores. Figuras simétricas que sugerem dois anjos tocando música. Romanticismo insuportável que reconhece, perverso, o trânsito (esse fio demoníaco), entre a sedução, a maçã irresistível e o leito. Leito, de amores ou de morte? Pouco importa. Morremos de amores por essa maçã, corremos cegos em busca da asma que nos conduz até alturas irresistíveis, inatingíveis. Outros poetas irão descrever esse fio delicado que liga as alturas às agonias do amor. Agora voltemos aos leitos - abandonemos este ato falho de pensar em alturas - do que se trata, aliás, aqui é da ossada do poeta inglês. Essa, à qual nos dirigimos ofuscados pela maçã desejada.
Explique-toi...
Em The Orchard-Pit Rossetti apresenta a maçã traiçoeira com a qual uma tal Cirse seduz seus amantes, os envenena e os deixa cair atordoados nesse monte de ossos ressecados pelo tempo. Cuidado, se seguimos a interpretação de Cortázar - quem inclui um trecho do poema de Rosseti na epígrafe de seu conto Cirse -, cette femme parece se aproximar mais da tímida jovem marcada pelo fatum inevitável de ter que envenenar seus noivos do que de uma Eva que sabe seduzir. Delia, a jovem que encarna Cirse no conto de Cortázar, não sabe o que faz. Sua sedução depende de sua ausência, timidez, silêncio. Angustiada vê-se na necessidade de elaborar finos e delicados licores para colocar dentro das trufas da morte. Parece, apenas, uma menina querendo agradar. A estória não esconde segredo algum. Desde o começo do conto sabemos o que irá acontecer. O saber não é uma conquista para ser oferecida na forma do delicioso fruto vermelho. Conhecimento: algo banal. O charme do conto está na demorada preparação do licor, na inesperada barata que Mario achou no fundo da trufa antes de morrer. O inseto pode substituir o papel clássico da maçã de Eva? Não acredito...
Ora, concentremos a vista nesse lien de poetas que surge entre amor e morte. O amante vai para a morte não porque sai do paraíso (me poupem dessa estorinha com Eva!). Não gosto do papel atribuído ao conhecimento. Adoro as maçãs, adoro oferecê-las (aliás!) mais pelo sabor doce que escorre entre os lábios vermelhos de Venus, do que pela suposta promessa de conhecimento. O amante vai para a morte porque não pode amar fora do âmbito da morte, porque todo seu suor envolve a perda do ar, porque anseia morrer no leito, chegar ao leito. A morte trabalha desde dentro a luta dos amantes. E a relação não se expressa num saber, não é patrimônio de poetas. A relação e o próprio caminho, o aprimoramento sutil do próprio amor - Genet chamava de violência à serena fragilidade de seu amante. Como a fúria amorosa que se desdobra no carinho, nas carícias imperceptíveis, no colo oferecido como a primeira forma do descanso definitivo. Por isso minha obsessão com Délia e seu demorado procedimento de elaboração das trufas.
Ao passar penso brincalhonamente, se não são os anjos dessa pintura os que operam esse bendito vínculo entre amor e morte. Anjos venham construir o vínculo! Anjos-demônios transformem cada beijo dos amantes no desgastado brilho dos corpos da ossada!
The Blue Closet é o nome da aquarela que Rossetti pinta para William Morris em 1857. Morris parece ser relevante na produção de intrigas acerca do quadro. A aparente ausência de motivos descrita por Rossetti, se enfrenta aos mistérios insuflados pelo amigo. Não tenho fôlego - e o mais importante não tenho arquivos - para mergulhar nessa correspondência, mas achei interessante a casual sugestão de uma relação possível entre o quadro e o poema Ballad of the Dead Ladies, tradução da Ballade des Dames du temps jadis composta por François Villon em torno do século XV.
[...]
Où est la très sage Héloïs,
Pour qui fut châtré et puis moine
Pierre Esbaillart à Saint-Denis ?
Pour son amour eut cette essoine.
Semblablement, où est la roine
Qui commanda que Buridan
Fût jeté en un sac en Seine ?
Mais où sont les neiges d'antan ?
[...] Prince, n'enquerrez de semaine
Où elles sont, ni de cet an,
Que ce refrain ne vous remaine :
Mais où sont les neiges d'antan ?
Essa pergunta no final de cada estrofe, sua repetição cuidadosa, a delicadeza da neve caindo, me fizeram pensar no tempo. Não consigo desvendar, agora, a natureza desse tempo. Mas quando lia os traços de Villon, olhava para o quadro de Rossetti, pensava na pele delicada das musas dos outros quadros (especialmente em Jan Morris), me confundia na imaginação da Maria de Rojas e pensava no tempo, no brilho da pele e o tempo, a asfixia e o tempo, as luzes refletidas no mar e... o tempo. Flores, a lenta separação das pétalas, a perda das cores e perfumes, a transformação em pó. E nós, morrendo de amores por essas flores, por sua vaidade, seu private affair.
Gabriela (Mistral) com tom de mãe diria para Gonzalo (Rojas): Mas não um pó qualquer, meu filho, o pó neste leito de mãe que te deu a vida, te abandonou para te abandonares à ilusão de viver e te espera, paciente, no leito de morte. Oh, pó no féretro!
[G.M.;G.R.]
[Pintura: Rossetti. The Blue Closet, 1857]

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