Anne. Sarcástica, cirúrgica, genial!
As pessoas que Marcel ama são pessoas em movimento. Como Albertine - sempre correndo para algum lugar de bicicleta, de trem, de carro, num cavalo ou se atirando pela janela; como a mãe de Marcel, eternamente subindo as escadas para dar-lhe o beijo da boa noite; como sua avó, caminhando a passos largos para cima e para baixo pelo jardim todas as noites porque achava saudável, mesmo que estivesse chovendo a cântaros; ou como seu amigo Roberto de Saint-Loup, que num primeiro relance vimos saltitando sobre um banquinho num restaurante a fim de apanhar um casaco para Marcel, sentado à mesa, confuso e trêmulo. Marcel é o centro tranquilo de toda essa atividade cinética, ele é como a flecha alada do segundo paradoxo de Zenão, lançada do arco mas que jamais atinge o alvo porque não se move. Por que a flecha de Zenão não se move? Porque (segundo a explanação de Aristóteles) o movimento da flecha seria uma série de instantes, e a cada instante a flecha percorre o espaço inteiro daquele instante, e isto (Zenão diria) é a descrição da imobilidade. Se puséssemos juntos todos os instantes de imobilidade ainda assim não sairíamos dela [so if you add all the instants of stillness together you still get still]. Ninguém negaria que o romance proustiano flui com o tempo e com flechas disparadas em todas as direções. Mas podemos também imaginar o romance inteiro (em nossa cabeça) como um longo instante imobilizado, pois Marcel leva mil páginas do livro para alcançar o momento em que começa a escrevê-lo. Na última página ele lança sua flecha mas supera Zenão, pois a atira para trás, na medida em que acabamos de ler o romance que ele propõe escrever. Pensar muito tempo em Zenão e seus paradoxos me dá um pouco dor de cabeça, embora eu me divirta com sua argumentação fria. Eis um tiro-antídoto de Zenão disparado pelo devotado erudito proustiano, isto é, o cineasta Chris Marker (Sans Soleil): "Assim é que a história avança, tapando a própria memória como tapamos nossos ouvidos... (mas) um momento imobilizado queimaria como a chama de um filme bloqueado diante da fornalha do projetor".
[Anne Carson. O Método Albertine. São Paulo: Jabuticaba, 2017]

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