Segue aquele que, acredito, representa o conto-poema melhor elaborado da coleção: Ciúmes.
<<
Que seria aquilo entre meus dedos? Viscoso. Aderente, como graxa de sapateiro. Lustra-móveis que do mogno retirava o brilho escondido pela grossa camada de poeira. Deixada pelo tempo. Lustrava todos os móveis de seu petrificado quarto. Que seria aquilo entre meus dedos? Elástico, escarlate. Pegajoso. Beirava no nojento. Que havia de ser? Que era pois? Não sei se sei bem. Creio que plasma sanguíneo. Lápis de cor indelével na mão da cara amada - Você é um escroto, como você pode fazer isso? Quem você é? Seu ridículo ... Seu baixo ... Com seus gritos continuava a fazer com que meu borbulhante sangue saísse pelos cantos dos dedos. Arrancava nacos. Filés inteiros com meus dentes. Ajudava com a outra mão. Ajudava a mutilar meus outros dedos com outros dedos. Borbulhava a me olhar a bolha de sabão rubra. Balbuciava eu. Mas não sei. Que era pois? Como observar seus sapatos sem saber por onde induziram seus pés. Cada peça de roupa sem conhecer sua história plangente. Jocosa. Em cada peça um sorriso do desconhecido. Não haveria de saber quantas mãos alisaram suas peças despretensiosamente. Longamente. Finos dedos a dançar como arlequim endiabrado. Volúpia dos desconhecidos que cutuca o ciúme a fim de acordá-lo da sua rede de dormir. Intermitente me era parar. Observar cada peça desconhecida desse quebra-cabeça de citações infindas. Nem por isso deixava de montar. Montava. Montava peça a peça. E em mim ela montava. Dos nacos de meus dedos. Dedo a dedo. Perdi minhas mãos inteiras em sua boa imperdoável. Tragado fui para seus pulmões. Lentamente formei fraca fumaça. Farinha integral antes. Moeu. Moeu a sua moenda. Sem nutrientes. Bela. Branca. Baça. Nada. Ficou em pedaços entre as roldanas da trepidante maquina humana.
>>
[Caio Russo. Delicado desespero de beija-flor em voo]

Nenhum comentário:
Postar um comentário