Delicado desespero de beija-flor em voo
Plúmbeas plumas a planar. Antes de raiar calçava as chinelas. Pé ante pé ia à cozinha. Preparava antes o café de seu amigo. A porção de açúcar diluída em água. Enchia o potinho de plástico. Amarelas e vermelhas flores que nunca murcham. Em arabescos cuidadosos desenhava na janela seu voo abstrato. Enternecia o velho. Tão diminuto. Pesava tão pouco. Delicadeza da mãe natureza provida de asas. Eterna criança entre os pássaros. Admirava-o esse ornitólogo amador. Desesperado voava como quem morre. Angustiado o coração de chumbo trepidava em seu peito. Podia ser o voo sem volta. Robusto em asas de concreto pairava no denso céu nublado. Nadava em meio às impiedosas lufadas de ar matinal. Resistia a ave ao seu ominoso organismo ininterrupto. Violentava a si mesma na beleza do desassossego.
[Em obra homônima, Caio Russo]
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